Ilustração vista de cima: a mão de um adulto e a de uma criança desenham juntas numa mesa de madeira clara, ao lado de lápis de cor e de uma lista de rotina com estrelinhas

Treinamento de pais no TDAH: os benefícios duram?

Depois de semanas participando de um grupo de orientação, a rotina lá de casa começou a fluir melhor. As manhãs têm menos gritos, os combinados funcionam, o elogio virou hábito. Aí o programa termina e vem a pergunta que muita mãe, pai e cuidador se faz em silêncio: “E agora? Vai voltar tudo como era antes?”

Uma revisão publicada em 2023 na revista JCPP Advances tentou responder exatamente isso para o TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). E a notícia é encorajadora, com alguns “mas” que vale conhecer.

O que é o treinamento de pais no TDAH?

O nome assusta, mas a ideia é simples. Nesses programas, pais e cuidadores aprendem estratégias práticas para o dia a dia: organizar rotinas, dar instruções curtas e claras, elogiar o comportamento desejado na hora em que ele acontece, combinar regras e consequências previsíveis, planejar situações difíceis antes que aconteçam.

Um ponto importante: o TDAH tem origem neurobiológica. Não é causado por falta de limites nem por erro dos pais. O treinamento não parte da ideia de que alguém falhou. Ele oferece ferramentas para uma tarefa que, com uma criança muito agitada ou muito distraída, realmente é mais difícil.

O que os pesquisadores investigaram?

Uma equipe de pesquisadores, principalmente da Holanda, reuniu 27 estudos com sorteio entre os grupos (os chamados ensaios clínicos randomizados). Ao todo, quase 2.500 crianças com TDAH, da idade pré-escolar à adolescência, e suas famílias. Em média, elas foram reavaliadas cerca de 5 meses depois do fim do programa, e algumas até 12 meses depois.

A pergunta era: quando o programa acaba, os benefícios permanecem?

O que eles encontraram?

Em resumo, os ganhos se mantiveram. Comparadas às crianças que não fizeram o treinamento, as que participaram apresentaram menos sintomas de TDAH e menos comportamentos desafiadores. Os pais também relataram mais parentalidade positiva, mais confiança no próprio papel e uma relação melhor com o filho.

Na maior parte das medidas, não houve queda entre o fim do programa e o acompanhamento. Ou seja: o que foi conquistado, em geral, ficou.

A melhora se mantém meses depois
Tamanho da melhora em relação ao início do programa, no grupo que participou. Quanto maior a barra, maior a melhora.
Fim do programaCerca de 5 meses depois
Sintomas de TDAH (menos)
0,53
0,53
Comportamento desafiador (menos)
0,47
0,47
Parentalidade positiva (mais)
0,70
0,66
Parentalidade negativa (menos)
0,79
0,79
Fonte: Doffer et al., JCPP Advances, 2023 (grupo que fez o treinamento). Valores em tamanho de efeito.

Isso quer dizer que o TDAH “foi resolvido”?

Não, e é bom ser claro sobre isso. A diferença em relação aos grupos de comparação foi de pequena a moderada. O TDAH continua sendo uma condição que precisa de avaliação profissional, acompanhamento e, em alguns casos, outros tratamentos, incluindo medicação quando o médico indicar. O treinamento de pais é uma parte do cuidado, apoiado por diretrizes internacionais, e não um substituto de todo o resto.

Também vale lembrar os limites da pesquisa: o acompanhamento foi curto (média de 5 meses) e nem todos os estudos contaram o que as famílias fizeram nesse intervalo. Ainda faltam estudos que acompanhem as crianças por mais de um ano.

E a escola? O que os professores podem esperar?

Um detalhe curioso: os professores, que não sabiam quem havia participado do programa, tenderam a perceber melhora mais tarde do que os pais. Os autores levantam a possibilidade de que o que se aprende em casa leve algum tempo para chegar à sala de aula. Para professores e cuidadores, o recado é de paciência e trabalho em conjunto: conversar com a família e alinhar estratégias ajuda a acelerar essa ponte.

Ilustração de uma casinha e de uma escola ligadas por um caminho de estrelas e uma pequena ponte de madeira, simbolizando a ponte entre casa e escola
O que se aprende em casa leva um tempo para chegar à sala de aula. Conversar e alinhar estratégias encurta esse caminho.

Sinais de que meninas e crianças menores melhoraram um pouco mais em alguns aspectos também apareceram, mas são achados exploratórios que precisam ser confirmados. Não é motivo para desanimar quem tem um filho maior ou um menino.

Na prática: 5 atitudes para manter o que foi aprendido

Ilustração de um quadro de rotina com quatro cartões (sol, mochila, livro e lua) e uma mão colando uma estrelinha dourada em um deles
Rotina visível e elogio na hora: duas ferramentas simples que o treinamento de pais ensina.
  • Mantenha a rotina visível. Quadro ou lista com etapas da manhã, da tarefa e da hora de dormir, com figuras para os menores.
  • Elogie o específico e na hora. “Gostei de você ter guardado a mochila sozinho” funciona melhor que “muito bem”.
  • Dê instruções curtas, uma de cada vez. E confirme se a criança entendeu.
  • Combine as regras antes da situação difícil, e não no meio da confusão.
  • Cuide de você. Pais mais descansados e apoiados aplicam melhor as estratégias. Buscar apoio também é parte do plano.

Quando procurar ajuda profissional

Procure avaliação de um profissional de saúde (psiquiatra da infância e adolescência, neuropediatra ou psicólogo) se houver: dificuldades intensas de atenção, agitação ou impulsividade que atrapalham a escola, a convivência e a rotina há mais de seis meses; muitos conflitos em casa que não melhoram; relatos frequentes da escola; sofrimento importante da criança ou da família. Diante de agressividade grave, autoagressão ou pensamentos de se machucar, busque ajuda sem esperar.

Uma mensagem de esperança

Aprender novas formas de se relacionar com uma criança com TDAH dá trabalho, mas o esforço não se perde quando o curso acaba. As evidências sugerem que o que se constrói tende a permanecer, e que pais e cuidadores também saem mais confiantes. Você não precisa ser perfeito. Precisa de informação, apoio e constância.

E você? Já participou de algum grupo de orientação para pais ou professores? O que mais ajudou? Conta aqui nos comentários.


Referência: Doffer DPA, Dekkers TJ, Hornstra R, van der Oord S, Luman M, Leijten P, Hoekstra PJ, van den Hoofdakker BJ, Groenman AP. Sustained improvements by behavioural parent training for children with attention-deficit/hyperactivity disorder: a meta-analytic review of longer-term child and parental outcomes. JCPP Advances. 2023;3(3):e12196. doi.org/10.1002/jcv2.12196


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