No consultório, essa pergunta aparece quase toda semana: “Doutor, meu filho não para quieto. Se eu colocar no esporte, ele melhora?”
A resposta curta é: pode ajudar, sim, mas não do jeito que muita gente imagina. Uma revisão publicada em 2025 na revista BMC Public Health reuniu os melhores estudos sobre isso em crianças com TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). Vale entender o que ela encontrou, e também o que ela não prova.
O que são funções executivas, e por que elas importam no TDAH?
Funções executivas são as habilidades que funcionam como o “painel de controle” do cérebro. Três delas aparecem muito na vida de quem tem TDAH:
- Controle inibitório: segurar o impulso. Esperar a vez, não responder antes da pergunta terminar, parar uma brincadeira quando é hora de parar.
- Memória de trabalho: guardar uma informação por alguns instantes para usá-la. Lembrar das duas instruções que acabaram de ser dadas, ou do que a professora pediu há pouco.
- Flexibilidade cognitiva: mudar de estratégia ou de tarefa quando o plano muda, sem travar.
Quando essas habilidades demoram a amadurecer, o dia a dia fica mais difícil. Não é falta de educação nem de vontade. É o “painel” funcionando de outro jeito.
O que os pesquisadores investigaram?
A equipe, liderada por Ruinan Liu, reuniu 16 estudos com sorteio entre os grupos (os chamados ensaios clínicos randomizados). Ao todo, foram 685 crianças com TDAH, de 6 a 13 anos: 369 faziam exercício e 316 formavam o grupo de comparação.
Os programas variaram bastante. Havia exercício aeróbico, jogos com bola, atividades que misturam movimento e raciocínio e até videogames ativos. Em geral, duravam de 4 a 12 semanas, com 2 a 3 sessões por semana, de 15 a 90 minutos cada.
O que eles encontraram?
Quem fez exercício se saiu melhor em dois pontos: controle dos impulsos e memória de trabalho. Nos dois casos, o efeito foi de tamanho moderado, ou seja, perceptível e não apenas uma diferença de laboratório.
Já na flexibilidade cognitiva o resultado foi mais incerto. Dependendo da forma de calcular, o ganho aparecia ou não. Por isso os próprios autores dizem que o efeito nessa habilidade “parece limitado”.
Isso quer dizer que exercício trata o TDAH?
Não. E esse é o ponto que eu mais quero deixar claro. O estudo mediu habilidades do “painel de controle”, e não mostra que o exercício substitua o tratamento do TDAH. Avaliação profissional, orientação aos pais, apoio na escola e, quando o médico indicar, medicação continuam sendo a base do cuidado. O exercício entra como um aliado, e um aliado barato, acessível e bom para a saúde em geral.
Também há limites que vale conhecer. Os estudos eram pequenos, e todos os 16 tinham alguma fragilidade, como sorteio pouco explicado ou avaliadores que sabiam quem fazia exercício. A maioria foi feita na China, e os programas eram bem diferentes entre si. Por isso ainda não dá para dizer qual tipo de exercício, em qual dose, funciona melhor.
E a escola? O que os professores podem fazer?
Educação física, recreio e pausas ativas não são “prêmio” nem coisa que se tira como castigo. Para uma criança com TDAH, movimento é parte do que ajuda o cérebro a se organizar. Retirar o recreio de quem não conseguiu ficar quieto costuma piorar o quadro, e não melhorar. Se a escola conseguir incluir momentos de atividade física ao longo do dia, ganha toda a turma.

Na prática: 5 atitudes para começar em casa

- Escolha o que a criança gosta. Bola, bicicleta, natação, dança, pular corda. O melhor exercício é o que ela aceita fazer de novo na semana seguinte.
- Comece pequeno e fixe um horário. Duas ou três vezes por semana, em dias combinados, já se parece com o que foi estudado. Rotina visível ajuda.
- Prefira atividades com algum desafio mental. Jogos com regras, circuitos e brincadeiras que pedem prestar atenção e planejar misturam corpo e raciocínio.
- Vá junto. Caminhar, pedalar ou brincar com a criança fortalece o vínculo e mostra que se mexer é programa de família, e não obrigação.
- Elogie o esforço, não só o desempenho. “Gostei de ver você tentar de novo” vale mais do que cobrar quem ganhou.
Quando procurar ajuda profissional
Procure avaliação de um profissional de saúde (psiquiatra da infância e adolescência, neuropediatra ou psicólogo) se houver dificuldades intensas de atenção, agitação ou impulsividade que atrapalham a escola, a convivência e a rotina há mais de seis meses, ou se a criança ou a família estiverem sofrendo muito. Diante de agressividade grave, autoagressão ou pensamentos de se machucar, busque ajuda sem esperar.
Uma mensagem de esperança
Nem tudo no cuidado do TDAH precisa ser complicado ou caro. Um passeio de bicicleta, uma tarde de bola, uma brincadeira de pular corda: pequenas rotinas de movimento podem apoiar o autocontrole e a memória, além de render boas lembranças. Você não precisa fazer tudo. Precisa começar.
E você? Qual atividade física seu filho ou seu aluno mais curte? Conta aqui nos comentários, para inspirar outras famílias.
Referência: Liu R, Wen Z, Han D, et al. Effects of exercise interventions on executive function in school-aged children with ADHD: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health. 2025;25:3265. doi.org/10.1186/s12889-025-24335-2


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