Mão de adulto segurando a mão de uma criança de casaco felpudo durante uma caminhada, vista de cima, ilustrando disciplina com acolhimento

Gritar, castigar, conversar: o que a pesquisa mostra sobre disciplina e saúde mental

O dia foi longo. A criança derrubou o suco pela terceira vez, você pediu com calma, depois sem calma, e de repente a voz saiu mais alta do que você queria.

Depois vem o silêncio, e junto dele a pergunta que quase todo pai e toda mãe já se fez: será que eu estraguei alguma coisa?

Este texto não é para julgar ninguém. É para mostrar, com calma, o que a pesquisa sabe (e o que ainda é discutido) sobre palmada, grito e outras formas de corrigir os filhos, e o que dá para fazer no lugar.

Disciplina vem de “discípulo”, aquele que aprende. Se a criança só aprendeu a ter medo, ainda não aprendeu o que a gente queria ensinar.

O que diz a Academia Americana de Pediatria

Em 2018, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou na revista Pediatrics a política Effective Discipline to Raise Healthy Children (Disciplina eficaz para criar crianças saudáveis). A posição é clara: a entidade reforçou o pedido para que a punição corporal seja abandonada. Segundo a AAP, a palmada aumenta a agressividade de crianças pequenas a longo prazo e não ensina responsabilidade nem autocontrole.

O documento vai além da palmada. Ele trata também da punição verbal, como envergonhar e humilhar. De acordo com a AAP, bater, gritar ou envergonhar pode elevar os hormônios do estresse e alterar a arquitetura do cérebro, e o abuso verbal severo está ligado a problemas de saúde mental em pré-adolescentes e adolescentes. No curto prazo, a criança fica com medo, mas o comportamento não melhora de verdade no longo prazo.

A AAP cita, por exemplo, um estudo em que crianças que apanhavam mais de duas vezes por mês aos 3 anos eram mais agressivas aos 5. Aos 9 anos, essas mesmas crianças ainda mostravam comportamentos negativos e pontuações mais baixas em vocabulário receptivo.

O que a pesquisa encontrou, em resumo

FonteO que mostra
AAP, 2018 (Pediatrics)Palmada se associa a mais agressividade; gritos e humilhação elevam o estresse e se ligam a problemas de saúde mental na adolescência
Estudo citado pela AAPApanhar mais de 2 vezes por mês aos 3 anos: mais agressividade aos 5 e, aos 9, mais comportamentos negativos e menor vocabulário receptivo
Gershoff e Grogan-Kaylor, 2016 (metanálise)75 estudos: a palmada se associou a 13 de 17 resultados negativos avaliados (agressividade, problemas de comportamento e de saúde mental, menor desempenho cognitivo, menor autoestima)

O que ainda é discutido

Para ser justo com a ciência, vale dizer o que esses números não provam. Os estudos mostram associação, e associação não é, sozinha, prova de causa. Uma criança que se comporta de forma mais difícil pode também ser a que mais apanha, e os estudos de acompanhamento ao longo dos anos ajudam, mas não eliminam totalmente essa dúvida.

Há críticas à metanálise de 2016: ela não controlou o temperamento e o comportamento prévio da criança, e tapas e palmadas em qualquer parte do corpo foram tratados como equivalentes. Um pesquisador crítico, Ferguson, afirma que, com esses controles, o efeito da palmada se torna “trivial”. Mesmo ele diz não defender a palmada, e a autora principal, Gershoff, recomenda não bater. Ou seja: a discussão é sobre o tamanho do efeito, e não sobre se bater é uma boa estratégia.

Mesmo quem discute o tamanho do efeito da palmada concorda em uma coisa: ela não é uma boa ferramenta para ensinar.

E a lei brasileira?

No Brasil, a chamada Lei Menino Bernardo, aprovada no Senado em junho de 2014, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ela define castigo físico como a ação disciplinar ou punitiva com uso de força física que cause sofrimento físico ou lesão. E trata como tratamento cruel ou degradante a conduta que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize a criança. As medidas previstas para pais e responsáveis incluem advertência e encaminhamento a tratamento psicológico e a cursos de orientação, aplicadas pelo conselho tutelar. Em vez de assustar, a ideia da lei é orientar.

O que fazer no lugar

A AAP recomenda estratégias que ensinam em vez de apenas assustar: reforçar os comportamentos positivos, combinar regras e expectativas com antecedência, manter consistência ao aplicá-las e usar estratégias como o estabelecimento de limites e o redirecionamento.

Em vez de…Experimente…
Gritar “você nunca ouve!”Abaixar até a altura dela, falar baixo e dizer a regra em uma frase
Humilhar na frente dos outrosCorrigir em particular, falando do comportamento, e não de quem ela é
Mudar a regra conforme o humor do diaCombinar a regra com antecedência e manter a consistência
Só reparar quando a criança erraReconhecer em voz alta quando ela acerta, para reforçar o comportamento positivo
Bater para “ela entender”Redirecionar: tirar do conflito, oferecer outra atividade e conversar quando a calma voltar

Para o dia em que a paciência acabar (e ela acaba), aqui vai uma ideia prática. Ela é uma sugestão minha, no espírito do que a AAP orienta, e não um protocolo comprovado em estudo:

1. Pare

Respire e, se a criança estiver segura, afaste-se por um minuto.

↓

2. Diga a regra

Uma frase curta e clara: “Suco não se joga no chão. Vamos limpar juntos.”

↓

3. Repare, se precisar

Se você gritou, volte e diga: “Eu me exaltei. Desculpa. Vamos tentar de novo?”

Para entender melhor limites e obediência no dia a dia, leia também “Meu filho não me obedece, o que eu faço?”, e, se a birra é o que mais cansa, birra dos 7 aos 10 anos. E, sobre mentira e castigo, veja por que as crianças mentem.

Quando vale buscar ajuda

Procurar ajuda não é fracasso. Vale conversar com o pediatra ou com um profissional de saúde mental quando:

  • você sente que perde o controle com frequência e tem medo do que pode fazer;
  • os gritos, castigos ou palmadas viraram a principal forma de lidar com o comportamento do seu filho;
  • a criança demonstra medo de você, está muito agressiva ou se isolando;
  • o comportamento difícil é intenso e constante, e você suspeita de algo além da fase (por exemplo, transtorno opositor desafiante).

Perguntas frequentes

A palmada faz mal à criança?

A Academia Americana de Pediatria se posiciona contra a punição corporal e afirma que ela aumenta a agressividade a longo prazo. A pesquisa mostra associação com piores resultados, mas a causa exata e o tamanho do efeito ainda são discutidos entre os cientistas.

Gritar com o filho também faz mal?

Segundo a AAP, o abuso verbal severo, como humilhar e envergonhar, está ligado a problemas de saúde mental em pré-adolescentes e adolescentes. Um grito ocasional, seguido de reparação, é diferente de um padrão de humilhação, mas o ideal é buscar outras formas de corrigir.

Sem castigo, como a criança aprende limites?

Com regras claras combinadas com antecedência, consistência, reforço dos comportamentos positivos, limites e redirecionamento, que são as estratégias que a AAP recomenda no lugar da punição corporal.

Bater é crime no Brasil?

A Lei Menino Bernardo alterou o ECA para garantir que crianças e adolescentes sejam educados sem castigo físico e sem tratamento cruel ou degradante. As medidas previstas para pais e responsáveis incluem advertência e encaminhamento a tratamento psicológico e cursos de orientação. Para dúvidas legais, procure um advogado ou o conselho tutelar.

Fontes: HealthyChildren.org (AAP): atualização da política de punição corporal (Effective Discipline to Raise Healthy Children, Pediatrics, 2018); Scientific American: o que a ciência diz (e não diz) sobre a palmada, sobre a metanálise de Gershoff e Grogan-Kaylor (2016); IBDFAM: Senado aprova Lei Menino Bernardo.

Todo comportamento é um recado.

Dr. Jamilson Rodrigues · Pediatra · CRM/ES 4064 · RQE 13448 · Pós-graduado em Psiquiatria Infantil

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Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação nem o acompanhamento médico. Em caso de dúvida sobre o desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra ou um profissional de saúde mental.


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